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Linguagem Simbólica


CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA MODERNA À SIMBOLOGIA (cont.)

A LINGUAGEM SIMBÓLICA

Se observarmos os livros sagrados das diversas religiões, veremos que, neles, a linguagem simbólica é sempre predominante.

Nos estudos que empreendeu Jung sobre o símbolo, há alguns pontos de imprecisão, sobretudo ao tratar dos sinais verbais, os quais devemos distinguir do símbolo, como já o temos feito até aqui. Tal afirmativa, no entanto, não exclui o quanto há de simbólico na linguagem, pois que, inegavelmente, os próprios sinais verbais, como vozes humanas, refletem, no cromatismo das suas tonalidades sonoras, aspectos que expressam intenções mais profundas, como é fácil observar-se nas onomatopéias, por exemplo.

No estudo que fizemos da teoria de Caillet, vimos em outros trabalhos nossos, quanto são predominantes as vozes da espécie, como os sons rosnados, mugidos e sibilados para expressar um conteúdo conceituai, ao qual as palavras se referem.

Nesses casos, a palavra, que é um sinal verbal, portanto um sinal também conceituai, adquire um valor simbólico, e é este valor que a transforma pròpriamente em símbolo, o que quer dizer que a palavra, de per si, não é símbolo, mas somente quando revestida por esse valor simbólico.

A linguagem primitiva revela, como o mostram os estudiosos, um grau mais patente do simbolismo. A linguagem moderna, culta, que já perdeu a consciência das suas primitivas raízes, perde também este valor simbólico, reduzindo-se quase exclusivamente a sinais.

A palavra, como mero comunicante de conteúdos conceituais, é um sinal verbal, é um meio técnico de comunicação. E tanto é verdade, que podemos construir um conjunto de sinais arbitrários, com os quais traduzimos esses conteúdos, como a linguagem do surdo-mudo, na qual não há reminiscências de termos verbais.

Mas tal aspecto não exclui o valor simbólico que a palavra primitiva devia ter, e que ainda pode ter a palavra moderna, culta.

A linguagem primitiva, e até a das altas culturas, diferentes da nossa, não têm a precisão que encontramos na dos gregos e muito menos ainda na usada durante o domínio da escolástica. O grande papel que a escolástica realizou no clareamento das idéias consistiu, sobretudo, na nítida precisão dos termos, que nela adquiriram um significado seguro, evitando-se assim a linguagem mais analógica que encontramos em culturas como a hindu, na qual se torna muito mais difícil a construção rigorosa de estruturas filosóficas, por não terem os termos verbais um conteúdo preciso. Excluindo a cultura ocidental, as outras nos revelam a predominância do conteúdo de valor simbólico dos termos verbais.

E é interessante observar-se, como já o fizeram grandes psicólogos modernos, como em nós, homens do ocidente, em certos momentos, como nos arrebatamentos poéticos e místicos, voltamos a essa linguagem rica de significações simbólicas, o que é patente nas obras de arte, e na filosofia mística, que encontramos entre nós.

Sempre que desejamos expressar as nossas vivências, a gama heterogênea da nossa afetividade, os nossos arrebatamentos, temores, angústias e esperanças, a nossa linguagem é predominantemente simbólica, e os símbolos, que ela expressa, têm um conteúdo mais universal do que se julga. Esta é a razão porque podemos sentir e compreender a poesia de outros povos e, de outras culturas, bem como a sua arte, porque o humano está presente em todas as diversidades de que é rica a variância dos acontecimentos culturais.

Encontra-se, assim, um certo paralelismo entre o pensamento infantil das nossas crianças com o pensamento simbólico dos homens primitivos. Se atualizamos exageradamente este aspecto, corremos o risco de virtualizar outros que os diferenciam, chegando alguns ao ponto de considerar as nossas crianças, como primitivos apenas, e estes como crianças retardadas em nossos dias.

Desse erro não se eximem grandes antropólogos que atualizando apenas a semelhança, virtualizaram demasiadamente as diferenças, e não compreenderam que, na criança, a referência simbólica está totalmente oculta à sua consciência, o que não se verifica tão acentuadamente no homem primitivo, que usa o símbolo como o melhor meio de comunicação, pois, inegavelmente, é o símbolo a melhor linguagem para comunicar o que racionalmente é incomunicável.

Nossos estados afetivos, quando comunicados por meios racionais, tornam-se vazios de vida, porque é excluída a vivência. A rigidez fria que os cerca, lhes arrebata a verdadeira comunicação. Esta é a razão por que a linguagem afetiva têm de ser necessàriamente simbólica, porque, do contrário, cavaria um abismo entre as partes que desejam comunicar-se, pois as nossas vivências, as nossas experiências, como tudo que é singular, não pode empregar a linguagem racional, que é da generalidade, e precisa buscar, portanto, a linguagem afetiva, que é o símbolo, que é o melhor meio de comunicação do incomunicável.

O poeta, o artista, em poucas palavras, são capazes de transmitir um estado de alma, que um psicólogo, em termos racionais, precisaria páginas e páginas para descrevê-lo, sem alcançar certamente o seu objetivo. Em todos os tempos, a linguagem das religiões é uma linguagem poética, porque elas falaram à razão, mas sempre através do coração, onde muitas vezes permanecem, sem poderem ir mais distante.

Esse "irracional" que os símbolos traduzem, possui raízes tão profundas na alma humana, que em todos os momentos da história, naqueles decisivos momentos da história, foi preciso apelar para ele, afim de que os homens seguissem um rumo, ou se obstinassem na defesa de uma posição.

É uma melancólica e bem magra pretensão desejar-se cortar para sempre esta raiz, afim de que o homem fosse assistido apenas pelos conceitos racionais, meras generalidades. E assim como a flor, arrancada de seu galho, murcha, também o homem não poderia transformar-se numa mera máquina de pensar, ou ser substituído por uma máquina de pensar, como o desejam ingênua, mas acosmicamente, alguns cinebertistas modernos, com o seu ideal de um robot intelectual. Tais máquinas poderiam, quando muito permanecer no campo "matemático" da razão extensista, sem revelações de entendimento superior.

A linguagem simbólica possui uma raiz muito mais profunda do que julgavam homens de mentalidade "século dezenove", homens que o representam como Van der Leeuw, em seu "La Religion dans son essence et ses manifestations" onde à pág. 76, se revela com estas palavras: "Mas o homem dela se libertou quando, no século dezenove, atingiu a idade adulta", como se a humanidade anterior fosse composta apenas de débeis mentais, à cuja debilidade se atribuem as manifestações religiosas.

Grande antrópologo, incansável estudioso da religião sobre vários aspectos, revela-se contudo esse autor, um desconhecedor do que há de profundo na simbólica, nos rituais, em suma, em todos os modos de manifestar-se o sentimento e o pensamento religiosos.

Não podemos deixar de reproduzir estas palavras de Jung de seu livro "Transformaciones y símbolos de la libido" pág. 45: "Seria ridícula e injustificada presunção pretender que somos mais enérgicos e inteligentes que os antigos — é o acervo do nosso saber, o que aumentou, não a nossa inteligência, daí que, ante as idéias novas, sejamos exatamente tão míopes e incapazes como os homens das mais obscuras épocas da antiguidade.

Enriqueceu-se nosso saber, não porém a nossa sabedoria."

Uma das causas fundamentais da incompreensão do pensamento antigo, sob todos seus aspectos, está na nossa incapacidade simbólica. Esta é um dos fatores principais que precipitam o esvaziamento constante de um conteúdo mais profundo da nossa vida. E a crise que se estabeleceu no pensamento moderno — deve-se ao fato de não compreendermos nitidamente a significação simbólica da obra do passado, reduzindo, desse modo, o seu conteúdo profundo ao conteúdo que damos a esses símbolos, ou seja, consideramo-los, não como tais, isto é, como símbolos, mas sim como se falassem, de per si, o- que eles são, e não o que eles significam. Já dizia Hermes Trimegistos que é o verbo o que une duas semelhanças, e sendo o símbolo um participante de um participado, ou simbolizado, o verbum, que os unifica, não pode tomar-se como o verbo substantivo ser, mas sim como o de significar. Portanto, ao examinarmos a realização cultural da antiguidade, devemos ter sempre patente que esta foi a preocupação: o que ela significa? Nunca devemos considerá-la dentro da nossa esquemática, porque do contrário esvaziaremos totalmente o seu conteúdo psicologicamente verdadeiro.